Propósitos e Objetivos

“A História da Construção é uma disciplina de definição recente que pretende analisar a evolução do modus faciendi de uma atividade tão antiga como a espécie humana (…) A análise que se pretende com este novo campo teórico deve ser transversal e servir não só para preencher lacunas de conhecimento deixadas pela Arquitetura, pela Engenharia Civil e pelas várias Disciplinas Históricas, mas também como ponte de ligação entre todas essas matérias” (MATEUS, 2011, p.11).

Ultimamente, observa-se que o estudo e o conhecimento das edificações do passado e das suas técnicas históricas de construir, cada vez mais vêm ganhando relevo nos estudos específicos da história da arquitetura. Negligenciado até muito recentemente – embora admiravelmente desenvolvido por arquitetos historiadores do século XIX como Viollet-le-Duc e Auguste Choisy – estes estudos haviam caído em desuso, substituídos por uma prática histórica que no campo da arquitetura estava mais preocupada em interpretar filiações estéticas, tipologias e articulações espaciais do que propriamente se debruçar sobre as dificuldades e métodos encontrados na execução de uma edificação. Comportamento este muito provavelmente decorrência do efeito da cisão que houve no século XIX no campo do saber da construção, e que, a partir de então reservou para a nascente Escola Politécnica (origem do ensino de Engenharia) o saber tecnológico determinando que à Escola de Belas Artes (origem da Arquitetura) cabiam as concepções artísticas – projetuais e conceituais – e, irremediavelmente cindindo em dois e separando a distâncias crescentes um conhecimento que até então era na sua integridade competência do campo do arquiteto, pelo menos tal como este profissional havia sido concebido a época do renascimento italiano.

Não apenas sobre o ponto de vista da enorme contribuição que vem dar ao campo da história em geral e mais especificamente da história das técnicas humanas e da arqueologia industrial, o retorno ao tema das técnicas construtivas tradicionais nos últimos decênios deu-se em especial pela via da revalorização dos monumentos históricos, na atual onda de turismo cultural que a partir da segunda metade do século XX tem sido um dos mais expressivos fatores determinantes do incremento de fluxos migratórios temporários com os seus conseqüentes aportes de divisas e tendo como alvo, regiões ricas de patrimônio cultural imobiliário. Ora, é justo na área do patrimônio cultural onde de forma prática estes conhecimentos se mostram indispensáveis, em especial a partir da recente constatação de que no campo do monumento arquitetônico a autenticidade documental está ligada não apenas a forma, mas também a estrutura, de maneira a que aos tradicionais e já apreciados valores estéticos, arquitetônicos, urbanísticos e paisagísticos do monumento, é também acrescentado um valor tecnológico.

Contudo, embora esta retomada dos estudos das técnicas construtivas já possa ser observada na Europa há algum tempo – e especificamente em Portugal com certa particularidade – até porque o Conselho de Europa exige a ‘utilização de técnicas históricas’ quando do financiamento de obras de restauração/conservação, o mesmo não se pode dizer do Brasil. Procurar desenvolver e divulgar este tipo de pesquisa em nosso país é fundamentalmente o propósito do nosso Grupo, que, de uma forma mais detalhada apresenta os seguintes objetivos:

- Incrementar o estudo das técnicas construtivas históricas luso-brasileiras como um conhecimento para a compreensão do desenvolvimento histórico, social e técnico da sociedade brasileira assim como da portuguesa e, sobretudo como um saber indispensável para a adequada conservação, manutenção e restauração do patrimônio histórico monumental desses dois países.

- Incrementar o estudo dos materiais de construção; das práticas corporativas (ofícios) e acadêmicas (engenharia militar e posteriormente da Politécnica e das Belas Artes); da transmissão do conhecimento científico através de tratados e manuais; e o estudo das obras arquitetônicas e urbanas remanescentes, aquelas que ficaram em parte íntegras, em parte recuperadas e modificadas e que constituem o campo operativo do patrimônio monumental luso-brasileiro.

- Incrementar os estudos em ‘História da construção luso-brasileira’ sejam eles referentes à construção arquitetônica como à urbana e entendendo que para tanto é necessário um esforço multidisciplinar de pesquisadores das áreas de arquitetura, urbanismo, engenharia, história, arqueologia, sociologia etc.

- Incentivar e impulsionar os estudos das técnicas construtivas no Brasil através do estabelecimento de vínculos com os pesquisadores portugueses do mesmo tema; ampliando o núcleo inicial de pesquisadores por meio de eventos científicos de caráter luso-brasileiro a serem realizados no Brasil; divulgando as pesquisas e o ‘estado da arte’ por meio de publicações científicas dos congressos realizados; formando mestres e doutores no Brasil e em Portugal dedicados aos estudos das técnicas construtivas históricas; trazendo para o Espírito Santo importantes pesquisadores da área – tanto brasileiros quanto portugueses – com o intuito de ministrarem mini-cursos e oficinas.

- Contribuir – fomentando a organização e coleta das bases documentais, mas também através das reflexões teóricas sobre o tema – para uma futura escrita de uma ‘História da construção luso-brasileira’.

 

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